Bom dia, coração.
Venho lhe trazer lembranças de quão duro foi chegar até aqui. Quantos tropeços, quantas rasteiras, e conseguimos nos manter vivos. A vida passa tão depressa que, às vezes, nem a percebemos passar. Esse ano, por exemplo, passou tão rápido que, em lembranças, não me recordo de nada. Mas eu tenho em mim que muita coisa aconteceu, só não fiz questão de guardá-las. Sei que muito me encontrei, mas muito me perdi também, e, nessas indas e vindas, acabei me desprendendo de você; fui atraído pela razão que, de muito, me confortou. Passei parte do meu tempo acreditando que as coisas que me vinham de ti, de nada me valia, cansei de acreditar em suas palavras e dar de cara no primeiro poste que me aparecia. Confesso que foi muito difícil fazer-lhe viver em meio a tantos buracos provocados por nossa imaturidade. Mas eu descobri que a razão também é traiçoeira, te satisfaz tanto quanto o coração, te faz sentir mais superior, mas, ao fim, nada lhe foi proveitoso. O que lhe é concedido pela razão não vem e permanece, depois de algum tempo some, sem nem dar aviso, — sem falar no que dura apenas um dia, — o bom, é que você nem sente falta, mas, eu, acabei por me sentir sozinho e, minha razão, nem me consolou. Estou desconfiado que ela não tem sentimentos e, assim, pra mim, não serve. Para dar fim a essa nossa singela história, acho que fui muito injusto em ter-lhe deixado, mas diz que nós, seres humanos, somos profissionais em errar… Lembro-me do dia em que lhe pedi perdão, cansei de apanhar do porvir da razão e acabei-me em voltar. Fui muito injusto contigo. E de tão bondoso e harmonioso me aceitou de volta. Sei que não merecia, mas obrigado, por aturar todas as minhas burrices, por sofrer junto comigo, e, mesmo com todas as nossas divergências, eu prefiro sentir à morrer racional.